18 de jan de 2013

Entendendo a velhice

Entender a velhice é indispensável, caso contrário, essa será uma fase de rancor e ressentimento. Um velho frustrado tem inveja dos jovens e sofre sem perspectiva do futuro. Quando isso acontece, tudo fica ruim – tudo o que acontece no presente não é aceito e somente as coisas passadas é que são importantes. Isso não é bom. Aliás, a sabedoria bíblica diz: “Jamais digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Pois não é sábio perguntar assim”.

A velhice não é apenas um fenômeno externo. Ela também atinge nossa realidade interior quando não entendemos o verdadeiro sentido da vida. Isso é de uma importância tal que não podemos ignorar. Nada melhor que considerar as palavras do apóstolo Paulo: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas”.

Não precisamos desanimar com a velhice, com o cansaço, o enrugamento da pele, o aparecimento de doenças, e as limitações generalizadas decorrentes da idade. Isso acontece com todos os humanos e deve ser aceito com naturalidade. Essa disposição de encarar a vida como ela é, inclusive na velhice, supera naturalmente uma multidão de problemas que nem chegam a incomodar os que assim procedem. A fraqueza física pode ser acompanhada de um espírito renovado cada dia. Quando vivemos pela fé em Jesus, todas as tribulações dessa vida se tornam leves e passageiras comparadas com a glória abundante e incomparável que nos aguarda na eternidade. Exatamente por isso, não damos tanta importância para o óbvio resultante da velhice, porque há outra realidade maior e melhor que não podemos ver, mas experimentamos pela fé em Jesus conforme o Evangelho. A velhice é temporária, mas a vida interior do espírito é eterna. Quando temos a vida abundante que Jesus oferece, de fato passamos da morte para a vida e a velhice é vivida com qualidade e naturalidade sadia.

A velhice é como o entardecer, como o sol que se recolhe sem perder a sua luz. A velhice é o tempo da vida onde a luz interior deve brilhar ainda mais em nós. Quando seguimos a Jesus não andamos jamais em trevas, pelo contrário, temos a luz da vida, o que resulta em uma velhice iluminada como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. Uma velhice de luz é fruto de uma vida de luz. O sol do meio dia começou com uma luz suave no amanhecer e termina o dia com raios lindos no crepúsculo iluminado. Assim é a vida de um velho feliz – uma vida de luz.

A velhice nos torna mais introspectivos e intimistas, nos fazendo olhar muito para dentro de nós mesmos e para cima – para a eternidade. Olhamos tanto para fora ao longo da vida que esquecemos a maior parte do tempo de olhar para dentro; mas a velhice proporciona isso com mais intensidade. Nesse sentido a velhice nos aproxima mais da eternidade. A lógica do tempo nos diz que na velhice estamos mais perto da morte, o que naturalmente nos leva a pensar mais na morte e na vida por vir.

Não precisamos envelhecer para sermos mais calmos, afetivos, pacientes, compreensivos, não darmos tanta importância para quem não nos dá importância, evitarmos a vaidade, não abusarmos da força, desistir do que não faz bem, amar sem ser amados, e ser plenos em Deus, porque Deus não é para os restos como os restos não são para Deus. Não que a velhice seja “resto”, mas, por que não nos lembrarmos de nosso criador nos dias de nossa mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais diremos não ter neles prazer?

Sem ignorar nossa genética, o modo de sorrir, alto ou baixo, gargalhadas ou contido, o olhar sereno, cansado, perdido, a postura ereta ou curvada, os gestos rápidos ou lentos, as rugas, a voz cansada, clara, ou difícil de compreender, desafinada, os passos largos ou curtos, os joelhos trôpegos, ou seja, nossos corpos dizem muito sobre nossa velhice. Parece-me que na velhice, mais que em qualquer outra fase da vida, cada ação é uma confissão de como somos, de como nos sentimos, e do que queremos ou precisamos. Já foi dito que “o rosto é o outdoor da alma”. Se o coração alegre aformoseia o rosto, o que diz o rosto de um velho por si só? Nossos corpos revelam nossas experiências e escolhas. Os cosméticos não podem disfarçar o que nossos corpos revelam sobre o que somos. Um dia deixaremos este corpo para termos um corpo perfeito, mas continuaremos sendo nós mesmos, os mesmos que éramos quando velhos.

O salmista Davi escreveu que Deus farta de bens a nossa velhice, de sorte que a nossa mocidade se renova como a da águia. Que Deus pode fartar de bens a nossa velhice é fácil de entender, mas como renovar a mocidade na velhice? Antes de tudo, mocidade e velhice é um estado de espírito. Alguém pode morrer com vinte anos e ser enterrado com sessenta. Muitos vegetam na juventude e muitos são jovens na velhice. Assim como a águia que quando chega a certa idade se depena e se desunha para uma renovação, semelhantemente podemos ser renovados na velhice para uma vida melhor.

Como é ser mendigo? Você sabe? Eu não sei como é ser mendigo. Eu nunca tive essa experiência na vida. Então, de fato eu não sei como é ser mendigo. Eu posso até me aproximar de um mendigo, conviver com ele, entrevistá-lo, estudar sobre essas pessoas, mas isso não me faz saber realmente o que é ser mendigo. Assim, ninguém sabe o que é ser um velho, um idoso, senão o próprio idoso. Além disso, cada idoso tem a sua própria realidade na velhice que tem. Isso me diz que devo ser um velho de verdade, com aquilo que me diz respeito. O que estiver bem e conservado em mim, por exemplo, como visão, audição, não tem que ser igual em outro velho. Porém, não devo reclamar por não ter o que for saudável em outro velho. Saber ser velho é uma arte.

Algumas vezes já me vi surpreso com algumas mudanças físicas: perda de massa muscular, realce de veias, dores, rugas, cabelos cada vez mais grisalhos, cansaço, doenças, desejo de ser vovô, ajustes na alimentação, entre outras mudanças. Por outro lado me alegro envelhecendo ao perceber o cuidado do Pai celestial, a maturidade adquirida, a família adulta, a fé firme, a esperança renovada, o amor dado de graça.

Deus nos ajude a entender a nossa velhice e na medida do possível a dos outros - parentes, amigos, conhecidos e até mesmo daqueles que encontramos pelo caminho. Os velhos são mais sábios, eles sabem mais da vida que os jovens. Sábio vem do latim sapiens, que vem de sapere, que quer dizer saborear, degustar. A velhice traz consigo uma longa experiência de degustação da vida. Mas, os velhos são vulneráveis e precisam de compreensão.

Antonio Francisco - Cuiabá, 18 de janeiro de 2013 – Voltar para Velhice.

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