1 de dez de 2012

A vida extraordinária

Como ter uma vida extraordinária que foge do usual e da pulsão? É possível ter uma vida abundante como disse Jesus? Não podemos negar que existe uma confusão interior dentro de nós como se um colapso tivesse nos atingido e isso nos impede experimentar a vida extraordinária. Esse colapso aconteceu no mundo espiritual e nos deixou em bancarrota. Mas é possível ser nova criatura conforme o evangelho de Jesus que nos oferece boas-novas de vida plena com Deus hoje mesmo.

Todos os nossos problemas externos são apenas sintomas de nossa confusão interna refletida na dificuldade de nos relacionarmos com as pessoas, de aceitarmos nossa própria realidade, e de não conseguirmos ter comunhão com Deus. Possivelmente você já sentiu essa confusão interior provocada pela incerteza que permeia todas as áreas da vida. A sensação de futilidade é latente em todos nós, maquiada desde cedo das formas as mais variadas, para não sofrermos a dor da desarmonia interior, inquietação e vazio; mas o problema continua real. A vida parece ser pintada por cores que gostaríamos de mudar e ninguém consegue se sentir extraordinário neste mundo ordinário onde nada preenche o vazio eterno que nos habita. É como se estivéssemos sepultados sem nenhuma perspectiva.

Mas, Deus promete abrir a nossa sepultura e nos tirar dela para uma nova vida. Fomos criados por Jesus e para Jesus, e somos predestinados a ser cristãos, no sentido mais pleno da palavra. Não estou falando de religião nem da sistematização da fé, mas de uma relação de fé condizente com o espírito do evangelho de Jesus. Ele colocou a eternidade dentro de nós e somente ele pode preencher o vazio que nos habita. A vida é mais que biológica, ela é espiritual, ela é eterna, ela é pessoal, consciente, racional e ao mesmo tempo sobrenatural.

O evangelho nos oferece as boas-novas para uma vida extraordinária. Quando cremos no evangelho dando sempre razão a Deus em tudo, deixamos a vida ordinária e experimentamos a vida extraordinária. É isso que Jesus espera de todo aquele que diz ser seu discípulo: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuva sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.43-48). A vida extraordinária não se conforma com este mundo, mas se transforma todo dia com a renovação da mente, para experimentar qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.1-2).

A Igreja não tem mostrado essa alternativa para a sociedade - a contracultura cristã que somente os seguidores de Jesus podem apresentar. O que encontramos nas igrejas é o conformismo com o mundo, é o amor pelas coisas passageiras e pelas paixões carnais. Jesus está dizendo para as igrejas atuais o mesmo que disse para uma igreja do primeiro século: “Eu conheço as suas obras; você tem a fama de igreja viva e ativa, mas está morta”. Alguém disse que “a Igreja tem vinte quilômetros de extensão e dois centímetros de espessura”. Há muito barulho nas igrejas, muitos trovões, mas pouca chuva. Não há diferença relevante entre a igreja e a sociedade porque ela perdeu a essência do evangelho e por isso não influencia ninguém. É como o sal quando perde o seu sabor. Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens, porque a igreja que não salga na verdade não é igreja.

O conhecido Sermão do Monte sempre me encanta. Nele encontramos a essência do ensino de Jesus - a praticidade da vida cristã. Todos nós nos sentimos aquém do ideal quando lemos o Sermão do Monte, mas ao mesmo tempo ele nos inspira a viver melhor e nos enche de esperança, porque é coerente e relevante para os nossos dias. Mostra como Jesus é e o que espera de seus discípulos. As bem-aventuranças mostram o caráter do cristão e as bênçãos decorrentes delas; a influência cristã é mencionada como sal e luz; a relação do cristão com as leis de Deus são aplicadas de forma extraordinária; a devoção cristã é sincera e real; os bens materiais não devem ser nossa prioridade, e sim, a glória de Deus; nossos relacionamentos se qualificam e se definem quando andamos com Jesus; a vida cristã só existe para quem é de fato cristão, e não para quem apenas confessa a fé com os lábios.

O Sermão do Monte é pragmático. Dizer que este ensino é inatingível é ignorar o propósito de Cristo; dizer que qualquer pessoa pode praticá-lo é ignorar a realidade do pecado. É claro que o Sermão do Monte é atingível, mas apenas por aqueles nascidos de novo pelo poder do Espírito Santo. Pessoas não regeneradas estão certamente diante de um padrão impossível de atingir. O Sermão do Monte é praticável, mas apenas para os discípulos de Jesus. Simpatizantes do evangelho, religiosos, frequentadores de igrejas (templos), podem se frustrar diante das palavras de Jesus. Mas, isso não quer dizer que o Sermão do Monte foi proferido para uma classe especial de pessoas “santas”. Não. Ele foi ensinado para pessoas comuns como nós, pecadoras, humanas tanto quanto nós. O diferencial está no que Deus faz na vida daqueles que creem no evangelho e são convertidos a Jesus. Viver conforme o estilo de vida mostrado no Sermão do Monte está tão além de nossa capacidade natural, que a única coisa a fazer é se render e se humilhar diante de Deus reconhecendo nossa total falência espiritual confiando completamente no amor regenerador do Espírito Santo. Esse milagre pode acontecer em cada um de nós pela fé, capacitando-nos a viver de um modo digno do evangelho. 

A Igreja é o povo de Deus, povo “santo”, “diferente”, “separado”. Foi para isso que Jesus se deu a si mesmo por nós, a fim de nos livrar dos nossos pecados e purificar para ele mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras. Esse povo é diferente porque tem um estilo de vida que não combina com o jeito de ser das pessoas com quem convive. Jesus disse: “Não vos assemelheis, pois, a eles”. Isso não fala de isolamento ou superioridade. Basta olhar a vida de Jesus nos evangelhos para perceber que ele vivia no meio das pessoas e não rejeitava o povo. Mas, a diferença entre ele e os religiosos era inconfundível. Aliás, essa foi a grande barreira entre Jesus e o povo, a interferência das seitas judaicas, como os fariseus, escribas, e saduceus. A vida extraordinária ensinada no Sermão do Monte mostra o contraste entre os que seguem e os que não seguem a Jesus, seja a igreja nominal e religiosa ou o mundo moralista e profano. Há uma vida extraordinária para você e para mim em Cristo Jesus.

A vida extraordinária não pode ser confundida com religião. A vida vem de Deus, enquanto a religião é aquilo que fazemos para Deus com a intenção de agradá-lo com nossos méritos, e isso é como trapos imundos aos olhos do Senhor. Essa tem sido a ruína das religiões, inclusive do Cristianismo. A religião nos ensina a ter aparência de piedade, mas não oferece nenhum poder contra o egoísmo, a avareza, a vaidade, a arrogância, a desobediência, a ingratidão, a calúnia, e todos os males. Devemos fugir de tudo isso e seguirmos apenas Jesus que nos oferece de graça a vida extraordinária.

Antonio Francisco - Cuiabá, 1 de dezembro de 2012 - Voltar para A vida extraordinária.

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