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A Quitanda e o Supermercado

Quando a gente era menino comprava na quitanda, enquanto hoje compramos no supermercado. A quitanda era aquele pequeno estabelecimento comercial onde o vendedor era conhecido de toda a nossa família, a gente comprava fiado em nome dos pais e o proprietário anotava em um caderno para ser pago no final do mês. As crianças até lhe pediam a bênção e alguns eram compadres de nossos pais.

Se não desse para pagar tudo, ficava para o outro mês e nem tinha juros. A gente comprava conforme precisava, pois raramente se estocava mercadoria em casa. Não havia geladeira e as coisas se estragavam facilmente. Era normal comprar metade de uma rapadura, meio quilo de açúcar, meia barra de sabão, um quarto de queijo (250 gramas), um litro de querosene para a lamparina e assim por diante. As compras eram feitas com diálogos e tantas vezes com prosas sem pressa de voltar para casa. O vendedor e o comprador se interessavam um pelo outro e conheciam a família um do outro, os negócios, os problemas e planos. Parecia um ambiente familiar na comunidade.

Mas o tempo passou, e hoje vivemos na era dos supermercados. É tudo diferente, basicamente o oposto da quitanda. O supermercado é um grande estabelecimento comercial. A gente não conhece e nunca vê o dono da empresa que muitas vezes pertence a uma sociedade anônima. As crianças podem até desfrutar de um playground, mas alguém deve cuidar delas ou pagar pelo uso. A gente não conhece os funcionários e não precisa falar com eles para comprar, pois é um ambiente onde você mesmo pode escolher o que quer comprar. Em geral as pessoas até preferem que os funcionários nem lhes dirijam a palavra. Hoje para comprar tem que ter dinheiro, cartão de crédito ou cheque. Caso contrário, você não compra nada. Comprar fiado ficou mais sofisticado. A pessoa do caixa pergunta: crédito ou débito? Mas, tem que ter o cartão. Os juros estão em tudo o que se compra. Somos obrigados a comprar conforme a embalagem e tudo é muito impessoal ainda que muito atraente.

A igreja tem se tornado como um supermercado. Os templos são cada vez maiores e mais confortáveis para atrair os fiéis (clientes). As relações são superficiais, pois ninguém conhece ninguém, os cumprimentos são de aparência e a intimidade é mínima, pior que a dos compadres no tempo de nossos avós. É normal participar de um culto, ir embora e não falar com ninguém. As pessoas pouco se conhecem ou nem se conhecem. Os membros das igrejas se tornaram consumidores exigentes; pagam para usufruir e se não gostarem reclamam, trocam de “gerente” (pastor) ou vão para outro “supermercado” (igreja) que lhes agrade.

Fazendo comparações, a igreja deve ser como a quitanda e o supermercado; deve viver no varejo e no atacado. Os grandes ajuntamentos no prédio da igreja se comparam ao supermercado, que é o perfil da igreja há mil e setecentos anos. Isso tem a sua importância. Mas não se pode ignorar o estilo “quitanda”, onde a igreja vivencia seus valores em pequenos grupos. Somente nesses ambientes são vivenciados os chamados mandamentos recíprocos, aqueles conhecidos como “uns aos outros”. É aqui que as coisas acontecem de fato. Os grandes ajuntamentos refletem o que acontece nos pequenos ajuntamentos.

Sobre a igreja no início, a Bíblia diz: “E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo” (At 5.42). Esse é o equilíbrio que precisamos resgatar; viver as celebrações coletivas, mas jamais subestimar a importância dos pequenos grupos. É como um pássaro com suas duas asas.

A igreja não é um sistema semelhante ao Antigo Testamento. Ela nasceu para ser um movimento, não um monumento. Para a igreja, todos os dias são santos, todos os lugares são santuários e todas as ações são rituais sagrados. O que identifica a igreja é a presença de Jesus, mesmo que com dois ou três reunidos em seu nome (Mt 18.20). Nós somos a igreja e somos o templo; o restante é de somenos importância.

Antonio Francisco - Cuiabá, 11 de maio de 2012 – Voltar para Mensagens.

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