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Um jeito novo de ser igreja

Certa ocasião, a imprensa europeia criticou o evangelista americano Billy Graham, citando que ele estava atrasado 50 anos em sua forma de evangelizar. Ele pensou e respondeu que a crítica estava errada – “Eu não estou atrasado 50 anos, mas sim 2.000 anos” – afirmou Graham. Gosto de pensar nesse episódio porque ele ilustra bem o que pretendo dizer sobre um jeito novo de ser igreja. Não estamos aqui inventando nada novo; queremos apenas viver de novo o Evangelho de Jesus.

A grande questão está naquilo que Soren Kierkegaard disse: “O Evangelho não foi provado e julgado falho. Ele foi julgado difícil e, portanto permanece não provado até hoje”. Por não terem provado ainda a veracidade do Evangelho, muitas pessoas têm transformado a igreja em um clube, tentando fazer dela um lugar ao gosto do cliente aonde as pessoas vêm para se entreterem e ouvirem o que lhes agrada conforme a lógica humana.

Pesquisas afirmam que os evangélicos no Brasil chegam a 20,2% da população, enquanto outras dizem ser de 51,1 milhões. Com esse crescimento, acredita-se que em 2020, mais da metade da população brasileira, cerca de 105 milhões de pessoas serão evangélicas, ou seja, em apenas dez anos, a maioria dos brasileiros será protestante, mas sem influência - sal que não salga e luz que não brilha. Não é essa a Igreja de Jesus. O jeito novo de ser igreja consiste no fato de viver em Cristo, de se fundamentar nele, de construir nele, de se conformar com ele, e de poder dizer: “Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”. O jeito novo de ser igreja é vivenciar a simplicidade do evangelho.

Decepção e êxodo no mundo evangélico

Alguns dizem que a “igreja evangélica” cansou; eu diria que ela caducou, mesmo que haja quem diga que ela já morreu. O que existe por aí chamado de “igreja evangélica” é nada mais que um movimento chamado de “evangélico”. Isso não vai acabar tão cedo porque as multidões precisam de um “guarda-chuva” que lhes proporcione a sensação de proteção contra os medos e inseguranças, mas nada que resolva as questões mais profundas do ser. Mesmo assim, os paradigmas eclesiásticos tradicionais têm provocado um grande êxodo no meio “evangélico”. Muitos se cansaram de profecias (profetadas) não cumpridas, bizarrices impostas por líderes déspotas, estruturas hierárquicas que mais lembram uma companhia militar que uma família de fé, lideranças que julgam e expõem impiedosamente pessoas, resultando numa grande evasão dos templos “evangélicos” para alternativas de convivência mais verdadeira, mais humana, mais natural, ou seja, um jeito novo de ser igreja.

Uma palavra que resume esse êxodo é: decepção. Quem já esteve lá sabe do que estou dizendo, eu mesmo vivi lá por mais de trinta anos. O que se diz não condiz com o que se vive e paira no ar a forte sensação de insatisfação nesse meio. A institucionalização da fé foi e é a desgraça do cristianismo desde Constantino no IV século, e nem mesmo a Reforma Protestante superou esse problema. As pessoas não suportam viver debaixo de um sistema que gera culpa e provoca o sentimento de desqualificação para se agradar a Deus. No meio “evangélico” o desempenho substituiu a fé em Jesus, o descanso foi trocado pelo enfado da “consagração”, a Bíblia e o estatuto da igreja andam juntos.

Acredito que daqui para frente crescerá o número de pessoas que deixarão as igrejas tradicionais institucionalizadas para se congregarem de modo informal com familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalhos, e colegas de escola. Esse era o jeito de ser igreja nos dias do Novo Testamento. Com isso não estou advogando contra congregar-se em um lugar específico para grandes ajuntamentos, apenas entendo que o engessamento a que chegou a “igreja evangélica” não merece continuidade. Os crentes precisam ter coragem de romper para serem o que a igreja deixou de ser.

De volta às origens – a Igreja como no início

O jeito novo de ser igreja que as pessoas estão buscando é nada mais que o jeito inicial, conforme o evangelho de Jesus, que diz: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Eu creio que Deus está desmobilizando os impérios “evangélicos”, as hierarquias eclesiásticas, e fazendo o povo entender que ser igreja é ser de Jesus, é se relacionar em amor com as pessoas sem fazer acepção de ninguém, é não depender de um local, mas apenas usar o que for conveniente, é não regular a vida das pessoas com regras e perguntas questionadoras, é não ficar refém de uma comissão que se julga falar em nome de Deus para controlar vidas incautas, é não ser chamado de ladrão por não concordar em sustentar financeiramente um sistema que não merece ser mantido. Ser igreja é ser livre para viver conforme a consciência que cada um tem do evangelho de Jesus.

Deus não pode ser sistematizado nem engaiolado como tem pretendido fazer a “igreja evangélica” ao longo dos séculos, porque Jesus não entregou as credenciais de sua Igreja para ninguém. Ele é o Senhor, o fundamento e o Advogado da Igreja e não passou procuração. A Igreja é um movimento livre na história e ninguém detém o poder sobre ela, porque o vento do Espírito sopra onde quer e todos são ensinados por Deus. Jesus não é “evangélico”. Aliás, para ser do Evangelho, a pessoa tem que deixar de ser “evangélica”. Há outro Jesus, outro evangelho, e outro espírito que nada têm em comum com a revelação bíblica. É disso que precisamos fugir para sermos a Igreja que Jesus quer que sejamos. Não tenha medo de romper com o sistema eclesiástico vigente. Muitos já entenderam a verdade, mas continuam com medo de deixar a falsa segurança que a instituição lhes proporciona. Mas é preciso tomar uma de-cisão e sair de debaixo do tacão da religião para viver pela fé comum que foi entregue aos santos. Jesus oferece alívio para a alma, pois o seu jugo é suave e o seu fardo é leve; ele não esmaga a cana quebrada, nem apaga a torcida que fumega.

A igreja é feita dos que conhecem a Jesus

Não se pode negar jamais que a igreja é feita das pessoas que conhecem a Jesus. Caso contrário, a igreja nada mais é que uma agremiação, um clube, uma associação religiosa formada de pessoas que têm interesses comuns em nome de Deus, mas que nada têm com Deus. O texto bíblico é enfático em dizer que a graça de Deus se manifestou salvadora para nos educar a viver para ele, negando as impiedades e paixões mundanas, para vivermos de maneira sensata, justa e piedosamente, aguardando com esperança a manifestação da glória de Deus em Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda maldade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras. Essas coisas devem ser ditas com clareza, de modo que ninguém tenha dúvidas que é assim.

Mas, o que é conhecer a Deus? O profeta Oséias escreveu: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento”. O sacerdote rejeitou o conhecimento de Deus e deixou o povo na ignorância espiritual. Mas, o conhecimento de Deus seria apenas informações acerca de Deus? Certamente que não. Jesus disse: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. A vida eterna implica em conhecer a Jesus Cristo, o que não significa o conhecimento físico, nem mesmo o conhecimento teológico, ou seja, estudar Deus para poder conhecê-lo. Não. Jesus não é matéria de laboratório, muito menos de sala de aula. Então, o que quer dizer conhecer a Jesus?

O apóstolo Paulo escreveu: “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”. É possível que Paulo tenha conhecido pessoalmente a Jesus. Mas, se antes ele tinha apenas um conhecimento do homem Jesus, agora ele o conhecia como Deus. Ele não o via mais como via antes, pois se tornou uma nova criatura mediante o novo nascimento, o lavar regenerador do Espírito Santo. Quando isso acontece, tudo muda, passamos a nos relacionar com Deus de fato, as pessoas são vistas de outra maneira não antes conhecida. Isso é conhecer a Jesus. Apenas pessoas convertidas, regeneradas, nascidas de novo, fazem parte da verdadeira Igreja do Senhor Jesus Cristo. Somente pessoas com essa experiência conseguem ser igreja como realmente a Igreja deve ser.

O conhecimento de Deus por parte daqueles que são de Deus, vai muito além do que apenas informações sobre Deus. O saber ensoberbece; somente o amor edifica. Quando não vivemos o que conhecemos por informação bíblica, não sabemos o que é conhecimento de Deus. Os religiosos dos dias de Jesus conheciam muito bem a letra das Escrituras, mas eram alienados do conhecimento de Deus, a ponto de Jesus lhes dizer: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida”. Informação bíblica sem a experiência do que se conhece não nos leva a lugar nenhum, porque a letra mata, o espírito é o que vivifica .

Ser Igreja – eis a questão

Jesus disse: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo”. Ninguém conhece a Deus verdadeiramente sem praticar a sua Palavra, porque é na experiência obediente de ser um discípulo de Jesus na caminhada da vida que isso acontece.

Ser Igreja de Jesus é ter a consciência e a firme convicção de que crer no Evangelho é suficiente, sem comparação nem competição com nenhuma outra coisa nesta vida; é viver pela fé estando sempre preparado para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que há em nós. Isso deve ser feito de uma maneira amável e tranquila, porque é assim que se exerce a verdadeira evangelização. Ser igreja é não ser juíza de ninguém, estilista sagrada, nem inventora de bons costumes, mas, anunciadora das Boas Novas de redenção em Cristo Jesus. Essa é a missão.

Ser Igreja é crer que apenas o Espírito Santo é capaz de convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo. Ser igreja é convidar a todos para a festa do Cordeiro até encher a casa, não fazendo acepção de nenhuma natureza com quem quer que seja, porque, conquanto o propósito do Senhor seja apresentar a si mesmo a igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito, ela ainda está sendo purificada e preparada para o encontro final com o seu noivo.

Ser igreja é ter em Jesus a razão de ser de tudo, porque ele é maior que Abraão, maior que o templo, maior que o sábado, maior do que Jonas, maior do que Salomão, maior do que os anjos, maior do que Moisés, maior do que Josué, maior que o sacerdócio do Antigo Testamento, maior que a antiga aliança, pois constituiu uma nova aliança, superior e eterna, maior que os sacrifícios, pois ele mesmo é o sacrifício único e suficiente para nossa eterna salvação. Jesus fez o universo, ele é a expressão exata de Deus, ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder, ele nos purificou dos pecados, ele assentou-se à direita da Majestade nas alturas. “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez”. Jesus nos libertou do império das trevas e nos transportou para o seu reino de amor, ele nos redimiu e perdoou os nossos pecados, ele é a imagem do Deus invisível e está acima de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude. Nele somos perfeitos, nele somos igreja.

Antonio Francisco - Cuiabá, 14 de março de 2012 - Voltar para Um novo caminho.

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